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quinta-feira, 12 de março de 2009

O GESTO*

Falta-me um dedo em cada mão
e uma mão em cada braço
Não tenho um gesto acabado…

Às vezes falta-me espaço
na cara para sorrir
Tudo em mim se incompleta,
tudo é tão velho e tão novo
Falta-me a força discreta
da geometria de um ovo

Mas falta-me um dedo em cada mão
e uma mão em cada braço…

Até me falta o cansaço
das dores que a terra tem…
O coração não tem espaço
para tanto, minha mãe

Resta-me ainda esta crença
que sou obra e criador
e não é muita a diferença
entre iguais na mesma dor
Que cada qual é senhor
do sangue das próprias veias
e hão-de florir alcateias
no ventre da própria dor

Falta-me um dedo em cada mão
e uma mão em cada braço
Não tenho um gesto acabado…

Mas os dentes estão em guarda
com um cravo e um manifesto
Um dia, só porque sim,
hei-de acabar o meu gesto
com um fado e uma espingarda
Levá-lo até fim!
E se eu não Mudar de Vida
que a vida me mude a mim!

*Após o espectáculo Mudar de Vida de José Mário Branco

6 comentários:

zoltrix disse...

A Dignidade é composta de Beleza e Força!

LUA DE LOBOS disse...

gostei muito
maria de são pedro

San disse...

não falta nada, está aí tudo, Mestre. ou não fossem as nossas pequenas grandes dores as dores do mundo.

rouxinol de Bernardim disse...

Nunca foi tão oportuno este mudar de vida!

Paula Raposo disse...

E eu fico sem palavras ao ler-te...forte o teu poema! Adorei. Beijos.

Batom e poesias disse...

E se eu não mudar de vida
que a vida me mude a mim!

Amem poeta!

Descobri-te no blog da Glória.
Parabéns e Abraços
Rossana