quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

CASTIÇAL

Disseram-me que não amava
Eu acreditei
e acendi uma vela

Disseram-me que era mau
Eu acreditei
e acendi uma vela

Disseram-me que não fazia falta
Eu acreditei
e acendi uma vela

Disseram-me que era triste
Eu acreditei
e acendi uma vela

E quando já só a esperança
nas mariposas do inferno me restava
alguém acendeu uma vela
e era a mim quem apagava.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

SEI QUE ME VISTE PASSAR

Sei que me viste passar e disfarçaste
Eu fingi que passei sem dar por ti
Desviaste o olhar mas sei que olhaste
Porque me encandeei quando te vi

Sonhei dias a fio fazer-te adeus
Viraste os olhos à Lua para não dar azo
Se alguém disser que me viu juro por Deus
Que passei à tua rua só por acaso

Senti o teu olhar nas minhas costas
Sei o bem que me faz ao coração
Gosto de te cruzar, tu também gostas
E um dia não és capaz de fingir que não

Música: João Gil (Fados de Amor e Pecado)

sábado, 14 de Novembro de 2009

JARDIM DE SANTOS

As cegonhas amarelas acasalam no Jardim de Santos
e não fazem mal a ninguém
Recolhem em versos solares
os lápis deixados pelos amantes

Com a goma do céu de Santos
fazem casulos nas árvores
onde depositam o óvulo primordial da fala
e alimentam de amarelo
todas as palavras inventadas nos jardins

com beijos dos casais que passam.

domingo, 8 de Novembro de 2009

O ASSOBIO DA COBRA (A LETRA SOLTEIRA)

Quando escrevi O Assobio da Cobra com o Manuel Paulo deu-me na veneta escrever uma letra, que pelo seu tamanho entra na classificação de peixe-espada, para, de certa forma e ao meu jeito, agradecer aos cantores que participaram no disco.
Essa letra nunca viu a luz do dia.
Hoje deu-me na veneta publicá-la, sabe-se lá porquê…
Então cá vai, com um abraço para o Vitorino, Tim, Camané, Arto Lindsey, Isabel Abreu, Manel Cruz, Filipa Pais, Dany Silva, Carlos Gurreiro, Arnaldo Antunes, Vozes da Rádio, Sérgio Godinho, Graça Reis, Jorge Palma, Manuela Azevedo e Zeca Baleiro.

Camarada, um abraço especial para ti!

BOA NOITE, PESSOAL!

Boa noite, senhor Arto!
O senhor do assobio,
o avesso do silêncio.
Mais um copo que eu emborque
entre Sintra e Nova Iorque.
Boa noite, sô Gaudêncio!

Boa noite, Manel Cruz!
Foi de truz! Fado marado!
Tens os dentes e as nozes,
outras poses, outro ataque...
e por falar em sotaque:
Voa noite para as Bozes!

Graça Reis de sua graça
Boa noite, mulherão!
Mulherão da voz de mel,
uma mulher com tua voz
as nuvens éramos nós
Eu juro que era fiel!

E como diz o Vinícius
que é homem dos nossos vícios:
Saravá!
Sara, vá ver se eu estou lá!
Sara, vá ver se eu estou lá!

Boa noite, seu Baleiro!
A tua tribo sou eu,
filho da maçã de Adão!
Filipa que faz saltar,
do azul do seu olhar,
frutos da imaginação.

Boa noite, Vitorino!
Tu és letra de mulher
e chapéu de galanteio.
Sérgio, mais do que bem-vindo
nesta casa que vai indo,
boa noite, irmão do meio!

Tudo em pé que é boa noite!
Boa noite, Camané,
voz da saudade e da alma!
Voz da flor que se doeu,
que floriu e que se deu,
boa noite, Jorge Palma!

E como diz o Vinícius
que é homem dos nossos vícios:
Saravá!
Sara, vá ver se eu estou lá!
Sara, vá ver se eu estou lá!

Seu Arnaldo, boa noite!
Que trovão que você tem...
Samba também! Juro que vi!
Você sabe do intento
da mulher com seu acento.
Boa noite, sô Dany!

Aldo Brizzi, que prazer,
que prazer em conhecer!
Quem está longe também vê,
se não vê de olho fechado,
vê samplado!
Boa noite, pra você!

Boa noite, sô Guerreiro!
O guerreiro mais gaiteiro
de Lisboa, já sambava...
Manuela, eu sou assim:
deixo sempre para o fim
a cereja que faltava.

Boa noite, dos Da Weasel:
Dá-lhe gás e dá-lhe diesel!
Saravá!
Sara, vá ver se eu estou lá!
Sara, vá ver se eu estou lá!

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

ILHA DA SAUDADE

não vejo a hora de voltar
e resgatar tudo o que é meu
para me enfiar nos teus sapatos
e me esconder no teu chapéu

não vejo a hora de voltar
a ser tua presa na praia
“vê se me consegues caçar
e tirar-me as penas da saia”

quem dera
ter o passado a tiracolo
espalhar a vida no meu colo
e a saudade na janela
quem dera
voltar a ter, voltar a ti
dar volta e meia ao que vivi
e ser para ti sempre a mais bela

não vejo a hora de voltar
largar as malas no salão
trepar por ti sem te falar
espalhar as asas pelo chão

não vejo a hora de voltar
morder-te a língua, ser malvada
para te ouvir: por que voltaste?
e eu responder: voltei pra nada

quem dera
ter o passado a tiracolo
espalhar a vida no meu colo
e a saudade na janela
quem dera
voltar a ter, voltar a ti
dar volta e meia ao que vivi
e ser para ti sempre a mais bela

Música: Manuel Paulo

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

PÁSSARO CEGO

tenho os sentidos do vento
e asas no coração
parto no meu pensamento
se o vento está de feição

à ternura chamo anil
e à esperança, vermelho
na alma há mais de mil
cores que nunca vi ao espelho

aquilo que me encandeia
é negro como a má sina
mas a luz da nossa ideia
é ovo de casca fina

que ao vento levante voo
neste sol que nunca brilha
que me leve de ilha em ilha
e me diga quem eu sou


tenho asas, não as vejo
nasci de uma falsa fé
de ser irmã do desejo
de saber como isto é

sabe deus onde irei dar
sem mapa nem farolim
onde o vento me levar
há um bocado de mim

que ao vento levante voo
neste sol que nunca brilha
que me leve de ilha em ilha
e me diga quem eu sou


Música: Manuel Paulo

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

ILHA DA SALVAÇÃO

eu sei que já me enganei
vezes sem conta
e não contei
eu sei que já me cortei
em facas de ponta
e não sangrei

eu sei que às vezes menti
para não ficar
longe de ti
eu sei que já me perdi
para te encontrar.
e entristeci

eu sei que disse que sim
a tudo o que não
partia de mim
chamei bombom ao ruim
pedi perdão
num copo de gin

andei à toa na rua
fiz a minha cova
acabei seminua
chamando nomes à lua
que não se renova
para eu ser só tua

mas fiz da minha perdição
o meu rosário
virei o mundo ao contrário
e encontrei a salvação

Música: Manuel Paulo (in Pássaro Cego)