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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

5 O SOBRESCRITO

Às 5ªs íamos à Sociedade ver a tourada na Espanhola. Quando El Cordobez se ajoelhava frente ao toiro não se ouvia uma mosca no salão. Os antigos falavam de Manolete e nós ouvíamos com respeito. Pouco mais havia para nos alegrar os dias… e a jorna dava cabo da gente.
Aquelas madrugadas dum cabrão à porta da Câmara a ver se algum manageiro nos levava sabe Deus para onde. Depois, tudo numa carroça, armados com dedeiras de cana e foices, a troco duma pelengana de chícharos.

Os da minha criação, parte deles, já tinham partido. Barreiro, Montijo, Seixal… um ou outro tinha ido parar a Lisboa e estava trabalhando para o Estado, mas esses tinham grandes pedidos.
Doía-me a espinha da jorna e o meu sonho era tirar a mulher do campo. Ainda para mais era ajeitada para a costura, podia ter um futuro.
Sorefame, Setenave, Lisnave, Siderurgia… Eu sei lá… Mandei cartas para tanto sítio. O maior calvário da minha vida é largar os meus…mas então?!... O que podia eu fazer? Os homens ganhavam 5 escudos no varejo e as mulheres 3 e 500 na apanha. Isto em anos de novidade, então e nos outros? Vamos ao rabisco e matamos um coelho com ferros…
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Bateram ao postigo. Era o carteiro
Trazia um sobrescrito de Lisboa
Não era engano: O nome estava inteiro
Era dirigido à minha pessoa

Abri-o logo ali: Era a respeito
De um pedido que em tempos eu fiz
Para qualquer ofício ganho o jeito
Mesmo que seja só como aprendiz

Nessa tarde já não saí de casa
Sentei-me frente ao lume a matutar
Enquanto dava a volta a uma brasa
Há dias de perder e de ganhar

Meti a tralha toda para um cesto
E mesmo ainda assim sobrava fundo
O que ficou tinha muito mais texto
Não cabe em nenhum verso deste mundo

Foi toda a minha gente à despedida
Ao Largo donde partiu a carreira
Abraços, beijos e até comida
Cada um exprime-se à sua maneira

E foi assim que a vida deu uma volta
A carta e os conselhos de um braseiro
O campo por onde eu andava à solta
Agora está no fundo de um estaleiro

Ref:
Tantas voltas dá a vida
Tantas voltas dá o Mundo
E depois volta não volta
Muda tudo num segundo
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Música: João Gil

5 comentários:

Pêndulo disse...

ouvi há pouco tempo na voz do Tim...

e de facto: "E depois volta não volta
Muda tudo num segundo" :))))


cumprimentos e um muito obrigado pelos inúmeros poemas

André disse...

Passei por cá, comentei no "Andei a ver de ti".
Há passagens:
Meti a tralha toda para um cesto
E mesmo ainda assim sobrava fundo
O que ficou tinha muito mais texto
Não cabe em nenhum verso deste mundo

Como esta...Que são simplesmente deslumbrantes.

Continuação

San disse...

não há tempo mais poético que o gerúndio alentejano!...

Anónimo disse...

O pai e a mãe leram com muita atenção tudo o que tu já aqui escreveste. Estamos muito orgulhosos, não sabiamos deste teu blog.
Foi uma surpresa que a MMM nos fez.

Parabéns nosso filho.

Um beijinho dos Pais

Anónimo disse...

Se a minha saudosa Avó, alentejana do melhor que já se produziu naquelas terras de ferro e fogo, te pudesse ler, já tinhas também pelo menos uma fã, lá prós lados da eternidade...

Muito bom!Beijinho.
Lena