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terça-feira, 24 de março de 2009

ÚLTIMO METRO*


Jardim Zoológico

Jazem verticais, dependurados. Os outros serpenteiam nos assentos com a cabeça almofadada na vidraça.

- Como se chama, menina?
- Aurora. E o senhor?
- Eu não sou um senhor, sou uma canção.

Praça de Espanha

Aos corpos somam-se corpos. E todos os corpos denunciam os ecos de tantas vidas. Cheiram a corpos os corpos que anoitecem; cheiram a perfume os que madrugam.

- O que faz uma canção a estas horas no Metro?
- Não faz nada. Vive!

S. Sebastião

Não é noite, não é dia; não cheira a manjericos nem a sangue; os relógios rolam pastosos no estranho limbo entre o tempo do que está feito e o tempo que está por fazer.

- A menina vai trabalhar ou acabou de sair?
- Não sei. Vivo entre dois mundos…
- Como a Canção de Lisboa…

Parque

- Acha possível encontrar o Jorge Palma por aqui, no último Metro?
- Não. Perde-o sempre! Costuma apanhar o primeiro do dia seguinte ou então vai a pé.

Marquês de Pombal

Sacodem-se da chuva inesperada os que acabaram de entrar. Frenéticos, picados pelas abelhas, envolvem numa estranha excitação os que dormiam de olhos abertos. Trocam-se olhares, cheiros e humidades. É o centro mais humano da cidade.

- Eu gostava de ser uma canção…
- Para quê?
- Para respirar na vida dos outros. Às vezes sinto-me frágil na minha.

Avenida

Uma mulher loura, de saia muito curta, com uns sapatos 44 de salto agulha a tiracolo, fura pelos encafuados e dispara:

- Importam-se de se afastar para os lados?! Quero sentar-me aí no meio! Apetece-me ir para casa entre um sonho e uma canção.

Restauradores

- A menina, em que estação sai?
- Não sei…
- Eu saio na próxima, saio sempre no coração…
- Como o Palma?
- Sim. Velhos hábitos…
- Posso sair consigo?
- Claro, meu amor! Encosta-te a mim
.
.
* Para o espectáculo homónimo de Jorge Palma

10 comentários:

glória disse...

essas cenas urbanas seguem o ritmo das canções emprenhadas de sentimentos. "para respirar na vida dos outros, sinto-me frágil na minha"; que bela transposição de afectos, de sensações de vacuidade. você me impressiona, se diferencia nesse oceano dos blogs. aqui me abasteço, bjs.

Paula Raposo disse...

Perfeito!!! Adorei. Beijos.

San disse...

Marquês de Pombal, Mestre!

Batom e poesias disse...

O que faz uma canção a essas horas no metrô?

Também eu gostava de ser uma canção para respirar na vida dos outros.

Por algum motivo isso me "doeu" lá no fundo...
Gosto quando sinto.
Grata por isso.

Rossana

peciscas disse...

As canções que ficam, as canções que nos dizem coisas, são mesmo aquelas que andam no metro, respirando os odores e os hálitos que se cruzam a todas as horas. Que respiram e transpiram com os corpos anónimos que por ali circulam, quase sempre silenciosos, mas cheios de histórias por contar.
As canções do Jorge.
As tuas.

AR disse...

Espectacular!

Congrats*

Solange Maia disse...

Apetece-me VIVER entre um sonho e uma canção.

hoje fico em pé para bater palmas prá você João !!!
E pedir BIS !!!

Beijo no coração,

Solange

http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

Anónimo disse...

Cam., esta não conhecia. Isto estava no programa do concerto do Palma? Muito bem esgalhado. Em qualquer destas estações está o Jorge. Alguém podia aproveitar este texto para argumento de um filme para uma canção. vídeoclip como se diz em camóne. Isto a preto e branco e ocasionalmente com a cor um bocado saturada dá um belo retrato urbano e subterrâneo das figuras lisboetas. Abraços. MP

Maçã de Junho disse...

O Blogue Palmaníaco não podia deixar de passar por aqui para felicitar o autor de tão maravilhoso texto promocional que tantas sensações desperta em nós.
Este texto em tempos já foi publicado no nosso blogue também.

Saudações Palmaníacas
André

zoltrix disse...

Lisboa de Metro, pelo Metro...
A ideia do anónimo MP é boa!
Genial esta tua escrita.